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“Pesadelo Perfumado” e o desencantamento com o ProgressoLeitura em 5 minutos

Cena de créditos do filme, contendo uma carta com um selo das Filipinas.

Lançado em 1977 e com estreia no Festival de Berlim, o longa-metragem Pesadelo Perfumado (Mababangong Bangungot) marcou a estreia do cineasta filipino Kidlat Tahimik na indústria cinematográfica. Em um formato peculiar e com o protagonismo do cineasta, é criada uma ficcionalização interessante que se desdobra tanto no formato de um “mockumentary” como em um travelogue e uma paródia etnográfica. A trama acompanha tanto a vivência nas Filipinas quanto uma eventual ida à Europa, mas é importante ressaltar que o protagonismo do cineasta, bem como a presença de cenários mais rotineiros, amigos e familiares, não implica uma leitura da história enquanto necessariamente autobiográfica. Esse sentimento de familiaridade e localidade proposto pela obra tem um papel fundamental na construção de um viés crítico: o cotidiano no interior do país é posto em perspectiva através do olhar e do crescimento do jovem camponês em meio às expressivas mudanças no espaço filipino, fomentadas pelo turismo e pelo neocolonialismo americano no cenário de globalização contemporânea.

Em meio a essa rápida ascensão das potências capitalistas e sob influência dos meios de comunicação e mídia, Kidlat passa a desejar deixar os limites impostos por sua aldeia para conhecer novas oportunidades de vida e um maior contato com uma tecnologia que parecia chegar até ele de modo insuficiente. Ainda assim, esta é capaz de ao menos fomentar, juntamente com os ideais de progresso, mudanças radicais naquele espaço de convívio ao longo dos anos — o que é muito bem demarcado pela simbólica expansão da ponte e conexão com a cidade, bem como concursos espalhafatosos e o próprio trabalho de Kidlat enquanto motorista de jeepney (uma pequena condução feita de sobras de carros militares americanos da Segunda Guerra Mundial). A dominação cultural que cerceia o país ao longo dos anos pela mídia e ocupação americana pode ser percebida como algo que não afeta apenas Kidlat individualmente, mas também gerações anteriores, ao passo em que sua mãe teme perdê-lo para tais paixões da mesma forma que perdeu o marido. 

O filme demonstra como o funcionamento e existência daquela sociedade, ainda que excluída dos “avanços modernos” na perspectiva do jovem, é fundamental para que o progresso do Ocidente pudesse se desenvolver. É a partir da subjugação, da utilização de matéria prima (ilustrada por diversas cenas de desmatamento em meio ao longa) e cooptação de força de trabalho e da terra que se permite a manutenção do funcionamento social de um país ainda em desenvolvimento às margens dos aproveitamentos estadunidenses/ocidentais — o que é bem representado imageticamente pelos automoveis anteriormente citados enquanto subprodutos do aparato de dominação e dos empreendimentos coloniais.

O menosprezo ao que é local transmite como a dominação não ocorre apenas de forma física, mas é fomentada pela construção e disseminação do sonho americano (através do programa de rádio Voz da América) bem como a instauração de uma necessidade falsa de trocar saberes próprios e étnicos por modos de vida mais “modernos”, em um projeto calculado de menosprezo daquelas potencialidades. Neste sentido, pode-se pensar em como as construções próprias da aldeia criadas a partir do manuseio altamente tecnológico de recursos naturais passam a ser vistas como retrógradas. Ainda que responsáveis por mantê-la firme e viva frente às intempéries e a força bruta da floresta, o interesse que mantém viva aquela cultura e saber é apagado: ainda que seu pai tivesse grande influência naquelas construções e no seu aperfeiçoamento técnico, o jovem abismado com as possibilidades das selvas de concreto ocidentais as coloca como retrógradas, passíveis de melhora através da completa alteração.

Esse grande interesse pela tecnologia e o multiculturalismo parece ser onde Kidlat constrói seu aprendizado da língua inglesa, e essa conexão é transmitida através do fã clube que preside e onde repassa seus conhecimentos acerca dos avanços espaciais americanos para os demais jovens do vilarejo. Apesar de ser um grande ponto no desenvolvimento do filme e na construção de sua dialogia, essa ponte conversacional e interativa é fragilizada quando as oportunidades de alcançar o exterior se abrem para Kidlat: o seu trabalho como motorista lhe permite reconhecer um capitalista norte-americano que o convida para trabalhar em seu lucrativo negócio em Paris, é uma futura ida para os Estados Unidos. O percurso, as descobertas e experimentações através do contato tangível com aquele novo mundo — como simbolizado pela interação entusiasmada e inocente do jovem com as tecnologias do aeroporto que apresenta-o à metrópole — trazem descobertas para além do que a transmissão do rádio poderia transmitir. Em Paris, Kidlat experimenta outras configurações sociais, entra em contato com diferentes culturas europeias e trabalha com máquinas de chiclete ao longo dos arrondissements da cidade: o modo de vida urbano o permite criar vínculos interessantes e sólidos, mas aos poucos o desdém pelos laços humanos e o materialismo cada vez mais exacerbado modifica completamente a cidade. Grandes construções que poderiam abrigar sua aldeia inteira são utilizadas apenas para queimar o lixo produzido pela rápida mudança de padrões sociais e de consumo, e o esmagamento dos pequenos comerciantes por hipermercados cada vez mais apáticos geram um conflito interno em Kidlat. O jovem se volta à sua própria cultura com outro olhar ao perceber que aquele progresso, antes tão desejado, estava por tomar proporções maiores do que as que poderia lidar. A instauração apressada e apática de modos de vida cada vez mais individualistas e ensimesmados parecia apresentar um conflito direto à solidariedade, conexão humana e construções de vínculos — o que marca um movimento de reflexão e retorno ao estado presente da aldeia. 

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É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e contribui com textos para o projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, do qual já participou como bolsista. Tem como principal interesse de pesquisa a literatura contemporânea, atuando sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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