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Resenha: Eu Vi o Brilho da TV (2024)Leitura em 5 minutos

Em abril de 2024, quando as plataformas de streaming no Brasil disponibilizaram o drama psicológico Eu Vi o Brilho da TV, houve uma frustração por parte dos espectadores em razão da aparência de terror slasher da década de 1990 não corresponder realmente à trama do filme. No lugar disso, estava uma assombrada recordação e experiência dessa mesma fonte de nostalgia, seguindo da infância à vida adulta o vínculo entre dois jovens fãs de um seriado desse mesmo gênero. Não se enquadrando no suspense de outras narrativas, o filme dirigido por Jane Schoenbrun retrata o horror vivenciado por Owen e Maddy que não encontram espaço nas suas vidas para as suas verdades pessoais, só restando para eles a TV.

De maneira parecida com os seus espectadores nostálgicos, os personagens do filme se emocionam e se veem em histórias adolescentes de terror, fazendo o longa-metragem ser composto por duas narrativas que se refletem simultaneamente. Os protagonistas oficiais do filme, Owen e Maddy, se identificam com Isabel e Tara, as protagonistas de The Pink Opaque, o programa de TV fictício que os dois acompanham e que os acompanha de volta. Dessa maneira, os eventos dramáticos da série tanto espelham quanto predestinam o que ocorre na vida real dos personagens do filme, sendo uma narrativa metatextual e não-linear.

Eu Vi o Brilho da TV começa, narrado por Owen já adulto, no primeiro encontro dele, aos 12 anos, com Maddy, de 14, quando ele puxa conversa com ela ao vê-la lendo o guia de episódios de The Pink Opaque. Com o início do filme se passando nos meados de 1990, os dois vivem com suas famílias no subúrbio americano e, socialmente desconectados delas, eles começam uma amizade um com o outro através da série. Como Owen é estritamente vigiado pelos pais e é proibido de ficar acordado até tarde para assistir à série, Maddy dá a ideia de ele dormir na sua casa, às escondidas de seu padrasto violento, para poder assistir. Desse momento em diante, Maddy passa a gravar os episódios em fitas para ele, de modo que os dois não se comuniquem em pessoa, mas pelo filme das fitas.

Em The Pink Opaque, Isabel e Tara são mostradas com a mesma dinâmica, com elas falando pessoalmente somente no primeiro episódio, passando a comunicar-se telepaticamente através do vínculo único que as conecta de lados opostos do condado. Juntas, elas lutam com um monstro diferente a cada episódio, sendo todos chefiados pelo vilão central da narrativa, o Mr. Melancholy, que tem como objetivo dominar o mundo e trancar as duas garotas no submundo do Reino da Meia-noite.  

Continuando a metanarrativa e o seu espelhamento da realidade, se percebe que Melancholy é também chamado de Homem da Lua, por ter como cabeça a lua de Viagem à Lua (1902) de George Mélliès, obra fundamental da história do cinema. As referências ao meio do cinema e da televisão se fazem presentes em todo o longa, na forma da estática que o pai violento de Owen encara como se estivesse hipnotizado, do cinema em que, quando mais velho, Owen trabalha quieto e obediente, e na sala escura da escola, onde se revelam as fotografias, lugar em que Owen e Maddy discutem The Pink Opaque pela primeira vez.

Dois anos depois desse contato por fitas, num momento em que Owen e Maddy estão mais próximos de se formar, eles se veem novamente em pessoa. Diferente do último encontro, Maddy não é mais acompanhada por uma amiga, porque esta, “como um monstro enviado para fazer da sua vida um inferno” segundo ela, espalhou na escola a fofoca de que Maddy a tocou sexualmente, a largando para entrar no time de líderes de torcida. Isso fez com que a garota, numa reprise da primeira vez que viram The Pink Opaque, reforçasse a confissão de que a série parecia “mais real do que o real” afirmando que, por isso, iria morrer continuando a viver ali, e que assim fugiria de casa. 

Negando, em pânico, o pedido de fugir com ela, Owen segue soturnamente a sua vida normativa diante do desaparecimento de Maddy, levando ao súbito reencontro dos dois aos 20 anos, com Maddy parecendo uma pessoa completamente diferente. Ela o leva para um bar queer por considerá-lo um lugar seguro para se conversar, e pede para Owen acordar para a realidade, em que Mr. Melancholy venceu e o mundo em que vivem é onde ele os prendeu no Reino da Meia-noite, posto que a série se encerra com Isabel e Tara derrotadas e presas. Elas foram envenenadas e enterradas vivas, assim como Maddy em parte do tempo em que estava fora, mas ao invés de parar de existir como as personagens da série, ela começa a existir, refletindo sobre si mesma como estivesse se vendo na televisão. 

Dessa maneira, é possível captar ao longo do filme a projeção (ou realização) de uma narrativa hegemônica de padrões conformistas. Casando os escritos teóricos de Judith Butler com os de Jean Baudrillard, Eu Vi o Brilho da TV observa tanto a viabilização do discurso dominante no medium audiovisual, quanto a possibilidade deste mediar performances desviantes e torná-las reais. Ultimamente, quando Maddy volta para salvar Owen de seguir sua vida complacente, é com a necessidade de lembrar a ele e ao telespectador de que ainda há tempo para ele fazer a si mesmo real.

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É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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