- Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler
Baseando-se nas narrativas de escravizados da literatura norte-americana, Octavia E. Butler, uma das pioneira do Afrofuturismo, escreveu Kindred, um trabalho único de ficção científica que denuncia as estruturas racistas da sociedade através da viagem no tempo. A história acompanha a jovem afrodescendente Dana que, após desmaiar, passa a ser transportada múltiplas vezes de sua vida costumeira nos anos 1970 para uma fazenda escravista do Sul dos Estados Unidos, em um período pouco antes da Guerra de Secessão. Na fazenda, ela percebe que está testemunhando a vida de dois de seus antepassados, Alice e o dono das terras Rufus, que tira de Alice a sua liberdade, tornando-a escrava a forçando-a a ser sua concubina. Nesse contexto, Dana percebe que precisa garantir a sobrevivência de seus avós, filhos de Alice, para garantir a própria existência no futuro, além de também precisar sobreviver à brutalidade da escravidão para ser capaz de retornar viva para a sua própria temporalidade.
As viagens no tempo de Dana intensificam ainda mais seus entendimentos da existência enquanto mulher negra no século XX, como também a colocam em um contato direto com a sua ancestralidade e com um trauma até hoje tão reprimido da sociedade estadunidense, ainda que as suas consequências racistas sejam visíveis dentro do contexto político e social do país
- Vulgo Grace, de Margaret Atwood
Lançado em 1996 e finalista do The Booker Prize, o livro de Atwood aborda, de maneira ficcional, os assassinatos de Thomas Kinnear e de sua governanta, Nancy Montgomery, ocorridos em 1843 na região atualmente conhecida como Ontário, no Canadá. Os crimes foram atribuídos aos dois empregados da residência, James McDermott e Grace Marks e, enquanto o homem foi condenado ao enforcamento, Marks foi sentenciada a prisão perpétua. A partir desse contexto, a autora constrói sua história a partir da criação de um médico fictício chamado Simon Jordan, que resolveu estudar o caso. A atenção do médico é apreendida pela figura ambígua de Grace Marks, que conta a ele sua vida desde a infância, o processo de imigração da Irlanda e fixação no Canadá até a sua experiência na residência. A dúvida que se instaura quanto à natureza de Marks é o ponto de partida da história: seria aquela mulher delicada e de nervos frágeis capaz de cometer homicídio ou apenas vítima das circunstâncias, injustamente condenada à reclusão?
- Pachinko, de Min Ji Lee
Publicado em 2017, o livro de Min Ji Lee explora uma época muito significativa para a história coreana e japonesa, marcada pelas cicatrizes do imperialismo japonês na Coreia e os impactos da Segunda Guerra Mundial. Imerso nesse contexto colonial em que noções de pertencimento estão fragilizadas, a obra percorre o século XX ao acompanhar a vida de três gerações de uma família que se origina de maneira complexa:
No início dos anos 1900, Suja, uma mulher coreana, se apaixona muito intensamente por um homem rico que lhe promete o mundo, mas logo descobre que o homem era casado e, mesmo estando grávida do seu filho, recusa-se a ser adquirida como sua amante. A decisão de fugir de um destino triste com um homem poderoso e da reputação arruinada e vulnerável que passou a ter dentro daquela sociedade a leva a casar-se com um homem gentil e migrar com ele para o Japão. Essa parceria e a mudança da simples família para o Japão dá início a uma vivência permeada por questões profundas, já que eles são vistos como eternos estrangeiros (“Zainichi”), independente de quantas gerações tenham o Japão como casa e local de nascimento. No decorrer da obra de Min Ji Lee, o protagonismo também é dado a esses descendentes de Suja, o que permite um melhor entendimento sobre como questões de identidade, pátria e pertencimento afetam cada indivíduo, dentro e fora dos salões de Pachinko e posteriormente na América, para onde o seu neto Solomon imigra.
- Reparação, de Ian McEwan
Sendo colocado pelo New York Times entre os cem melhores livros do século XXI, o best-seller britânico Reparação é uma obra de ficção que atravessa três momentos diferentes da vida de seus personagens. O livro inicia em um dia de verão em 1935, quando uma garota de 13 anos chamada Briony vê cenas ambíguas entre sua irmã Cecília e Robbie, amigo de infância da mais velha e filho da empregada da família. Ao interpretar mal algumas situações sob uma ótica de domínio masculino e inocência, Briony acredita que o rapaz seja uma ameaça para a sua irmã e, mais tarde, acredita que ele tenha a violado, por não entender o desejo mútuo dos dois adultos. Mais tarde, um crime acontece na região e a jovem aponta Robbie como o responsável, levando-o a prisão, de onde só é liberado sob a durante a condição de se alistar no exército para atuar na Segunda Guerra mundial. É ao testemunhar pessoalmente a violência na guerra que Robbie pensa em seu amor por Cecília, consolando-se com ele, e no que teria levado Briony, alguém de quem sempre cuidou, a tê-lo acusado.
A obra contrapõe de forma sentimental os temas do amor e da guerra, em uma época de sentimentos atenuados em meio ao caos, além de trabalhar os erros, as distorções da memória e eventuais inconsequências da juventude
- The Underground Railroad: Os caminhos para a Liberdade, de Colson Whitehead
Ganhador do prêmio Pulitzer e do National Book Award, The Undergound Railroad é baseado na existência de caminhos subterrâneos que foram essenciais para que a fuga de milhares de escravizados das plantações do sul dos Estados Unidos em direção ao norte e ao Canadá se concretizasse. Whitehead traz um sentido literal à denominação, antes metafórica, ao criar uma rede secreta de trilhos operada por engenheiros e condutores, e é nesse contexto de fuga e resistência que se conhece Cora, a protagonista. Privada de sua liberdade em uma plantação de algodão na Geórgia e sem suporte até mesmo entre outras pessoas negras, a mulher conhece Caesar, um homem que fugiu da Virgínia por essa rota de fuga e que ajuda Cora a resgatar sua vida e liberdade através do mesmo caminho. É nessa jornada de estado a estado que os personagens conhecem aliados e embarcam em um caminho de autodescobrimento em que suas raízes e as decisões e caminhos seguidos por seus antepassados são explorados e, após muitos questionamentos, entendidos.
O livro explora, então, possibilidades para além de uma abordagem que só leve em conta, de forma reduzente, a violência e brutalidade da escravidão dentro da história americana: a história representa a busca por uma nação que leve em conta a busca daqueles indivíduos por uma existência e pela própria liberdade. É interessante perceber, através da “transgressão” de Cora e Caesar, como um país que se promove por meio de ideais como justiça e liberdade teve sua fundação baseada na negação de humanidade às pessoas que construíram o seu território.
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É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

