A era vitoriana foi um período profundamente marcado pelos desdobramentos da Revolução Industrial, além de avanços tecnológicos e descobertas científicas que geraram uma série de mudanças na sociedade e na construção da individualidade vitoriana. Nesse sentido, pode-se pensar em uma fragmentação simbólica de noções de estabilidade ou de “unidade” existentes — traço que pode ser percebido na literatura da época, sobretudo na ficção gótica, que explorava o caráter fragmentário do sujeito e do cenário da Inglaterra do século XIX. Nesse sentido, a novela gótica O Médico e o Monstro (1886), escrita por Robert Louis Stevenson, parece lidar com os impactos da experimentação científica e com os limites da consciência humana. A escrita de Stevenson testa concepções de realidade que remodelam o espaço físico e psíquico de Londres, rearticulando noções de estranheza e familiaridade ao, de algum modo, cindir um indivíduo em dois corpos e personalidades distintas. Ao desafiar noções estáveis de realidade e existência, a obra do autor provoca efeitos que podem ser examinados sob diversas lentes, dentre elas a da psicanálise e a noção do infamiliar (ou uncanniness/unhomeliness, ambos sentidos contidos dentro da palavra em alemão unheimlinch).
A história de O Médico e O Monstro é construída através de uma série de historietas dentro da trama principal (“nested stories”) que se amalgamam e ajudam a dar uma maior dimensão ao tom de ambiguidade e incerteza que perpassa a obra. A novela tem início com o relato dado por Mr. Enfield sobre um indivíduo estranho e deformado chamado Mr Hyde, que chama a atenção coletiva após não ter prestado nenhuma solidariedade a uma menina que machucou em um incidente nas ruas do bairro. No entanto, a situação tornou-se estranha e impossível de ignorar quando, ao ser confrontado pelas testemunhas do ocorrido, rapidamente providenciou um cheque em nome de um respeitável e caridoso homem, Dr. Jekyll. A ciência de tal situação provocou um grande desgosto no advogado Utterson, principal narrador da história, que tem sua imaginação escravizada pelo enigma da natureza do homem (Cf. Stevenson) e é levado a adentrar pessoalmente no conflito, em uma tentativa de manter Dr. Jekyll, seu amigo e cliente, protegido de demais vilanias. É possível perceber, nesse sentido, uma imediata inversão da normalidade da realidade cotidiana, que é amplificada e transmutada através de um jogo de luz e sombras entre a cidade e aqueles indivíduos. Quando Utterson finalmente se encontra pessoalmente com Mr. Hyde, a presença do indivíduo evoca respostas negativas que apavoram o próprio narrador: Utterson sente uma necessidade de acabar com a vida do indivíduo, na esperança de cessar a anormalidade por ele provocada.
Pode-se dizer que a emergência desse estado de paranoia e ódio profundo está relacionada à percepção do infamiliar e, consequentemente, o encontro repentino com “algo íntimo à vida anímica desde muito tempo e que foi afastado pelo processo de recalcamento” (Freud, 2019, s/p). A visão de Hyde, o mal encarnado, faz com que todos os personagens da obra percebam a fragilidade da ordem conhecida e a cidade, que até então simbolizava o lar, acaba por receber uma sombra obscurecida. Mesmo que Mr. Hyde seja reconhecidamente um ser humano feito de carne e ossos (e, consequentemente, familiar), a natureza de seu espírito e suas intenções desfazem qualquer conexão com os códigos de civilidade e moralidade vitorianos. Ainda que Utterson, no início da trama, se diga simpático à heresia de Caim (Cf. Stevenson), e portanto assuma uma posição mais neutra frente à decisões e acontecimentos alheios à sua pessoa, o personagem parece ser regido, assim como os demais por esse mesmo código de conduta vitoriano. É essa aversão incontrolável à própria existência de Hyde que torna os crimes subsequentes do homem tão inevitavelmente repugnantes na perspectiva de Utterson.
Ainda que isso não seja revelado para o personagem até os momentos finais da trama, o sentimento geral de repulsa é provocado pelo fenômeno do duplo (dédoublement), a medida em que Mr Hyde opera como um espelho do prestigiado Dr. Jekyll, encapsulando aqueles aspectos da condição humana que eram tão suprimidos no período Vitoriano e que se mantêm até a atualidade. Como observa Luckhurst, “a literatura do duplo se tornou um dos modos privilegiados de explorar os mistérios do sujeito moderno, uma subjetividade menos marcada pela racionalidade, ordem e coerência do que pelo sonho, pesadelo e pela multiplicidade psíquica” (2008, p. XV, tradução nossa). Nesse sentido, Dr. Jekyll incorpora o campo do pesadelo e da subversão da realidade conhecida, ao escapar dos limites tradicionais do ego e da unidade ao se transmutar e tornar-se Mr. Hyde, agindo por trás da multiplicidade corpórea que é testemunhada na obra. Mesmo que o disfarce tenha ajudado Jekyll a parar de inibir o seu eu suprimido e, assim, preservar sua reputação consolidada, é possível perceber que essa divisão psíquica não restringiu ou separou completamente as duas entidades formadas. Apesar de criador da transmutação, Dr. Jekyll foi, em última instância, a grande vítima de seu ambicioso desvio, ao não conseguir conter a força adquirida por sua faceta perversa. O homem reconheceu que aquela figura reprimida levada à superfície, antes uma ótima válvula de escape, iria eventualmente levá-lo a sua literal destruição e ruína — com o mais cínico maquiavelismo se mostrando pouco calculado e exponencialmente danoso. No final da novela, tanto Hyde quanto Jekyll se encontram mortos, e toda a sacralidade de Jekyll é finalmente violada ao estar contido no único e distorcido corpo do seu eu verdadeiro e desinibido. A presença do espelho na sala funciona como um amplificador da ideia de que o reflexo de Jekyll seria Hyde: ainda que fisicamente distintos, os dois representavam a dualidade que coabita um único corpo e que constitui o eu humano.
Em uma última análise, é possível dizer que a obra de Stevenson põe em perspectiva diferentes aspectos da psique humana que vinham sendo estudados na época ao utilizar de ferramentas literárias distintas na construção da narrativa e de seus personagens. Através de um experimento gótico com o auto estranhamento do indivíduo Vitoriano, o autor criou uma série de duplos ao longo da história, já que todo personagem cria um relacionamento dúbio com si mesmo, seu círculo social e com qualquer noção de pertencimento alterada pela desordenação de um mundo que um dia foi familiar.
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É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

