Mar Aberto, romance de Caleb Azumah Nelson que foi vencedor do Costa Book Award 2021, será a leitura de junho do clube do livro Fernanda Carvalho. A reunião será no dia 30/06, às 18h, via Google Meet.
Nascido no ano de 1993 em Londres, Caleb Azumah Nelson é um escritor, fotógrafo e cineasta ganiano que tem sido condecorado e discutido desde o início da década de 2020. Os prestigiados romances Mar Aberto (2021), publicado no Brasil em 2024, e Small Worlds (2023), que ainda está para ser traduzido ao português brasileiro, causaram impressões notáveis no cenário literário, sendo os dois já vencedores de prêmios. Sua obra é marcada por inspirações de meios diversos (música, pintura, fotografia, cinema, literatura), relacionando-as através do solo comum de contemplação contemporânea da negritude. Nessa mesma linha, sua escrita ficou conhecida também pelo mérito de Azumah Nelson do uso expansivo da forma que, como ele descreve em entrevista com a revista Guernica, foi pensada para que o leitor não apenas leia e sinta o texto, mas que também o veja.
A escrita não foi a primeira intenção do autor; quando adolescente, Azumah Nelson era jogador de basquete, e iria continuar assim até o seu ombro se deslocar, impossibilitando-o de jogar profissionalmente. Apesar do final prematuro de sua carreira no basquete, o seu tempo na faculdade o levou ao encontro com a escrita criativa e com a fotografia.
Esse encontro, de uma certa maneira, refletiu o começo de vida de Azumah Nelson. Desde pequeno, o autor já era muito voltado para a música por parte da família. Ele era íntimo do gospel, por ter crescido numa Igreja Negra Pentecostal, e do UK Garage, gênero de música eletrônica de origem londrina que estrelava a grande coleção de discos de seu pai. Ele também conheceu o rap e o hip hop através de seus primos, e se imergiu no jazz com a adolescência.
Nesse sentido, se destaca a ideia que o autor guardou de uma palestra do artista visual Arthur Jafa, que falou que a música é um dos maiores lugares em que pessoas negras não precisam ser marginais. Esse sentimento pode ser conectado ao laço de Azumah Nelson com a música, a escrita, e a fotografia, de maneira que era somente exclusivo a música na sua infância. O contato do autor com esta, juntamente com sua vivência no sul de Londres, era muito diferente da sua experiência escolar como um aluno bolsista. Ao passo em que havia um número de professores e de familiares, como a sua amada avó ganiana, que o incentivava, havia também a maioria branca que, nesse espaço, o declarava inferior.
Assim, parte da intenção artística de Azumah Nelson se deve a deixar existir, por meio da língua ou da vídeo-fotografia, pessoas negras britânicas e a vivência no sul de Londres. Como comentado pelo autor, o seu livro de estreia fala muito de liberdade e de amor: na liberdade no amor, que, diante da violência diária direcionada a pessoas negras, deixa elas existirem, finalmente.
Mar Aberto apresenta a história de um rapaz que conta como conheceu a mulher por quem está apaixonado de forma muito íntima para o leitor, fazendo-o quase adentrar na mente dos personagens. A escrita de Azumah Nelson acolhe também outras formas de expressão artística: seu personagem é um fotógrafo que conhece uma dançarina, e as suas percepções muito visuais e dotadas de sensibilidade trazem uma densidade poética na construção da narrativa. Para além de colocar dois artistas negros no centro da obra, Azumah Nelson cita frequentemente outros artistas negros e suas influências ativas na construção da subjetividade e concepção artística dos dois.
O texto é iniciado com o encontro dos dois jovens em um Pub em Londres, fluindo em direção a um relacionamento mais profundo e terno. Essa relação, no entanto, acaba se complexificando à medida em que os dois conhecem e compartilham suas próprias vulnerabilidades: os dois ganham bolsas em instituições privadas na Inglaterra mas sofrem rejeição nesse ambiente pouco acolhedor. A narrativa de Caleb explora como nuances lindas da vida, como o amor, são afetadas pelo medo e pela violência em uma sociedade que não o enxerga como parte igualmente humana.
Para participar da reunião de junho do clube do livro, basta se inscrever clicando aqui. Será ótimo ter a sua presença na discussão!
