Um sucesso absoluto nos Estados Unidos, Infinite Jest – trazido para o português como Graça Infinita – não alcançou níveis comparáveis de popularidade no Brasil. O romance de David Foster Wallace se tornou uma obra incontornável da literatura contemporânea estadunidense, sendo discutido desde a sua publicação em 1996 e comemorando seu aniversário de 30 anos neste ano. Ao ser lançado, ele foi tido como mais do que um best-seller: o livro foi percebido como um fenômeno cultural, um evento literário, que se espalhou rapidamente. A sua publicação, que foi antecipada por uma espera tão popular quanto comercial, correspondeu à transformação de seu autor numa figura pública no discurso estadunidense, expandida para além do seu trabalho jornalístico, ensaístico e acadêmico. Diversas questões têm sido reavaliadas e descobertas na obra de Wallace, especialmente em relação ao estado da modernidade popularmente chamado de “capitalismo tardio”, fazendo do livro não apenas uma narrativa que discorre a cultura norte-americana, mas que expõe os tempos atuais de maneira que toca leitores ao redor do globo.
Uma das primeiras impressões que passa Graça Infinita é sua extensão, contando 1.144 páginas de múltiplos grupos de personagens centrais e notas de rodapé. Mesmo que, historicamente, obras de longevidade similar tenham sido comuns, essa leitura se destaca: pelo uso consistente de palavras polissilábicas e pouco conhecidas que faz pertinente a consulta ao dicionário; pela complexidade da qual a própria obra e seu universo são absortos, e pelo próprio desafio e jornada, que intencionalmente põe em discussão a relação da vida moderna com o tempo e o entretenimento.
Apesar dessa leitura demandar esforço, a escrita de Wallace é ainda sedutora para leitores do agora. O humor, de diferentes maneiras, é uma forte presença no livro, seja no uso de linguagem (que é relativamente coloquial, mesmo com o vocabulário extenso), na construção do seu universo alternativo, ou na sequência de eventos do romance. “Muito do que acontece é certamente bobo”, o New York Times escreveu no dia do aniversário do livro, e ainda assim, a leitura de Graça Infinita é consistentemente apontada como uma jornada de crescimento pessoal (tanto intelectual quanto emocional) do seu leitor.
É possível ver a mente contemporânea ser estudada em Graça Infinita, que propositalmente sustenta essa relação de uma leitura a princípio difícil, interposta com o coloquial e o bobo. O leitor é inicialmente apresentado, através do personagem-narrador Hal Incandeza, à Academia de Tênis Enfield, uma das principais zonas de ação dentro da trama, que se localiza no lado oposto da mesma esquina que o outro espaço importante da narrativa: a Ennet House Drug and Alcohol Recovery House. Além de justapor esses dois centros que enclausuram jovens atormentados por virtude e ambição de um lado, adultos atormentados por vício e adicção do outro, a cidade de Boston, no qual a história se passa, não pertence aos Estados Unidos, mas sim à Organization of North American Nations, abreviada intencionalmente como ONAN. Representando um superestado em que os Estados Unidos incluíram a si mesmos o México e o Canadá, a referência a Onã faz uma crítica a uma “auto-gratificação” na cultura norte-americana.
Essa busca adícta por gratificação também está no próprio título de Graça Infinita, sendo o nome do último filme do pai de Hal, além de ser chamado de “O Entretenimento”, antes de ele cometer suicídio. O filme foi conhecido por levar seus telespectadores à morte por fome ou desidratação, por conta do estado de catatonismo que ele os botou, e não se acha mais a última cópia do longa. Um dos subplots humorísticos da obra consiste numa gangue de separatistas de Quebois que nomeiam a si mesmos “Les Assassins des Fauteuils Rollents” (“Os Assassinos das Cadeiras Rolantes”) e que procuram por essa cópia do filme.
Muitos atravessamentos do contemporâneo, além dos acima mencionados, compõem o aniversário de 30 anos de Graça Infinita. O livro permanece hoje um clássico moderno que, para além de ser comicamente associado como um Ulysses da geração X, ainda posa como uma obra de extrema importância no século XXI.
